Infância feliz e saúde frágil
Guillaume Boulle de Larigaudie nasceu no dia 18 de janeiro de 1908, em Paris. Ele era o segundo filho de Jean-Jacques Boulle de Larigaudie e Henriette Glady, que já tinham uma filha, Marie-Thérèse. Seu primeiro nome, Guillaume, era tradicional na família paterna, mas desde muito cedo ele foi chamado de Guy e sua irmã, Maïté. Os Larigaudie eram originários da região de Ribéracois, no Périgord. Seus antepassados pertenciam à pequena notoriedade provincial: eram proprietários de terras, notários, juízes de paz, representantes comerciais e prefeitos de Saint-Martin-de-Ribérac. O pai de Guy trabalhava em Paris no ramo de seguros. No verão, os Larigaudies iam para Périgord, para a propriedade em Les Gérauds, em Saint-Martin-de-Ribérac. Guy citou Les Gérauds em muitos de seus escritos, mas especialmente em «Étoile au grand large» (livro publicado no Brasil pela Editora Agir, com o título «Estrela de Alto-Mar»), sua coleção de pensamentos e meditações, sua obra mais conhecida: «É uma casa no estilo Luís XIII, localizada em um canto da região do Périgord. Ela formou minha juventude, foi a alegria de todas as minhas férias e permanece até hoje, em meio a uma existência errante, o refúgio de estabilidade e paz redescoberto com amor após cada viagem».
Quando crianças, Guy e Maïté passavam as férias em Les Gérauds, mas, em 1914, com o país mobilizado para a guerra e Paris sob ameaça, eles se estabeleceram lá durante cinco anos. Até os onze anos, Guy viveu nesta bela zona rural do Périgord, desfrutando de anos de liberdade e aventuras de infância, de acordo com as quatro estações e as visitas aos primos. Ele também citou esses anos felizes em «Estrela de Alto-Mar». Naquela época, Guy era uma criança sem problemas: «O garotinho era robusto; ele cresceu normalmente, sem preocupações. Muito gentil por natureza, de temperamento equilibrado, ele tinha os hábitos de uma criança bem-comportada». O retorno a Paris em 1919, em meio à epidemia da gripe espanhola, prejudicou a saúde de Guy. Ele ficava doente com frequência e tinha que descansar regularmente no campo ou à beira-mar. Mas, mesmo tendo que se cuidar, ele não desistia (exceto quando a febre ficava muito alta) de brincar com os primos e amigos, andar a cavalo e organizar expedições que deixavam os que estavam ao seu redor de cabelos brancos. Várias dessas aventuras foram incluídas em seu romance «L’ilot du granel étang», publicado em 1936.
Em Paris, Guy descobriu o Escotismo, no grupo escoteiro da paróquia de Saint-Augustin, onde fez a sua promessa em 30 de maio de 1924. Seu chefe escoteiro era Hubert Verley, amigo íntimo do Padre Jacques Sevin, e personagem importante na história dos Escoteiros da França (Scouts de France). Hubert Verley exerceu forte influência sobre o jovem Guy.
Dúvidas, compromissos, decepções
Guy de Larigaudie era uma criança católica praticante. Ele gostava de ir à missa, confessar-se e comungar com frequência. Esses hábitos de devoção nunca o abandonaram. “A comunhão diária, todas as manhãs, é para mim o banho de água viva que fortalece e relaxa todos os músculos, a refeição substancial, o olhar de ternura que dá ousadia e confiança”, escreveu ele já adulto.
Aos 14 anos, Guy se interessou pelas missões. Ele se entusiasmou com esses homens de Deus que ofereciam suas vidas para proclamar o Evangelho em todos os continentes. Quando adolescente, ele escreveu a um amigo padre, dizendo que havia decidido se juntar à Congregação do Espírito Santo, os Espiritanos, para servir a Deus e aos homens na África ou nas Américas. Mas ele teve algumas dúvidas e seu diretor o aconselhou a passar um ano no seminário de Issy-les-Moulineaux. Em 1926, ele foi para o Issy. Mas a experiência não teve êxito. Guy se sentiu desconfortável. Debilitado por seus problemas de saúde, ele deixou o seminário em 1928, após dois anos de estudos. Cansado e ainda doente, ele foi para Villard-de-Laus, no maciço de Vercors, para se recuperar. Ele descobriu o esqui, que teve um verdadeiro efeito terapêutico em sua saúde. Em 1939, ele escreveu um livro sobre seu esporte favorito: «A Lenda do Esqui». Após seis meses de tratamento, a saúde de Guy melhorou consideravelmente e ele pôde voltar para sua família por um curto período, pois teve que prestar o serviço militar.
Em outubro de 1930, ele foi incorporado ao 6º Regimento de Cavalaria em Verdun; voluntário do pelotão de cadetes de oficiais da reserva, juntou-se ao 9º Regimento de Dragões em Épernay (Meuse). Foram cinco meses de aulas, exercícios militares intensos e equitação, culminando em um exame difícil (havia apenas sete vagas para cinquenta candidatos) para entrar em Saumur e concluir o treinamento. Guy foi reprovado. Foi um golpe duro para ele. Ele retornou ao seu regimento em Verdun. No entanto, ele desenvolveu um gosto pela vida militar e agora queria fazer carreira no Exército. Mas ele mudou de ideia novamente e pediu para ser transferido para Paris, para que pudesse continuar seus estudos, pois havia uma decisão ministerial que permitia que os recrutas que tivessem o diploma de conclusão do colégio continuassem seus estudos, enquanto estivessem em serviço. Designado para o 11º Regimento de Cavalaria, matriculou-se em Direito no Instituto Católico. Subitamente liberado de suas obrigações militares em dezembro de 1931 (decreto do Ministro Maginot em benefício dos estudantes), ele se viu civil e sem dinheiro, sem saber o que fazer com seu futuro. Ele escreveu um manuscrito sobre o Movimento Escoteiro, mas nenhum editor quis publicá-lo. Guy foi de emprego em emprego, escreveu alguns artigos para a agência Havas, planejou fazer concursos públicos, tornar-se treinador no acampamento de Chamarande, ir trabalhar na Inglaterra, criar cavalos na Argentina e também sonhava com uma carreira literária. Mas ele não era o único nessa situação. A depressão econômica da década de 1930 foi terrível para aqueles sem qualificação profissional. Felizmente, havia o Movimento Escoteiro, ao qual Guy dedicou a maior parte de seu tempo livre como assistente e depois como chefe escoteiro. E foi através do Escotismo que a vida dele começou a melhorar: Maurice de Lansaye, diretor da revista « Le Scout de France », convidou-o a escrever para a revista. Ele também conseguiu um emprego em uma agência de publicidade parisiense.
Primeiros romances
Nas décadas de 1920 e 1930, vários jovens escoteiros inventaram um novo gênero: o romance escoteiro: Pierre Delsuc, Serge Dalens, Jean-Louis Foncine, Dachs são os autores mais conhecidos. Guy de Larigaudie também foi um autor escoteiro, embora seu primeiro trabalho não tenha sido um romance escoteiro, mas um romance pré-histórico. Publicado pela primeira vez como uma série no Le Scout de France em fevereiro de 1933, «Yug» (um anagrama de Guy) narra as aventuras de um garoto sem clã e sua luta pela vida em uma região selvagem hostil. Quando criança, Guy foi profundamente influenciado pelo livro «La guerre du feu», de J. H. Rosny ainé. A história de Yug, realçada pelos desenhos de Pierre Joubert, foi um grande sucesso entre os leitores, e o romance continua sendo reimpresso até hoje, juntamente com sua sequência «Yug en terres inconnues» (Yug em terras desconhecidas) (1938); Os outros romances de Guy de Larigaudie: Raa Ia buse (1935), L’ilot du granel étang (1936), Le tigre et sa panthère (1937) e Harka the borzoï (1939), são todos romances de escoteiros que contam a história de amizade entre um animal selvagem e meninos, na natureza. O que torna os romances de Guy de Larigaudie tão especiais é o fato de apresentarem um grande número de animais. A maioria desses romances foi publicada na revista para a qual Guy também contribuiu com histórias e, mais tarde, com relatos de suas viagens.
A revista Le Scout de France, rebatizada de Scout em 1934, era um terreno fértil para jovens talentos: entre os escritores estavam Paul Coze, Pierre Delsuc, Maurice de Lansaye, Georges Cerbelaud-Salagnac. Jean-Louis Foncine, os cartunistas Pierre Joubert e Sven Sainderichin, os fotógrafos Jos Le Doaré e Robert Manson, muitos autores e artistas jovens e dinâmicos, todos chamados a contribuir para os maiores sucessos da literatura infantil. Guy estava feliz: ele praticava e trabalhava com o Movimento Escoteiro e estava começando a ganhar a vida com o Escotismo.
O viajante
Aos 25 anos, Guy tinha a vida toda pela frente e ainda buscava a plenitude. Em janeiro de 1933, ele participou de uma reunião pública liderada pelo Padre Paul Doncoeur, capelão dos cadetes do Exército, que lhe causou um forte impacto. Foi também durante esse período que ele estabeleceu uma estreita amizade com André de Knyff, que o apresentou o «La Route» (equivalente ao nosso Ramo Pioneiro). Ele iniciou sua jornada como Pioneiro em dezembro de 1933. Por outro lado, ele foi reprovado em inúmeros exames do curso de Direito e não conseguiu obter seu diploma de bacharel. O curso de Direito foi um verdadeiro fardo para Guy que, apesar de seus esforços, parecia não conseguir avançar. É verdade que ele era mais feliz com os escoteiros do que na sala de aula.
Guy tinha sede de aventura: com seus primeiros recebimentos, ele foi esquiar no Tirol (dezembro de 1933) e depois fez canoagem nos lagos de Norfolk Broads, no leste da Inglaterra (julho de 1934). Naquele mesmo ano, junto com membros de outras associações escoteiras francesas, ele foi selecionado para representar a França no Jamboree Nacional Australiano em Frankstone: quatro meses de viagem ao redor do mundo para pontos opostos do globo, Nápoles, Port Said, Suez, Golfo de Adem, Austrália e retorno pela Polinésia, América e Antilhas. No Jamboree, ele aprendeu a usar o chicote australiano, no qual viria a se especializar; Baden-Powell visitou o acampamento francês e parabenizou a delegação.
Dessa expedição, resultou seu primeiro livro de viagens: «Vinte Escoteiros ao Redor do Mundo», que termina com esta profissão de fé: «Uma única palavra, mais tenaz, ainda me muda: recomeçar».
Guy havia encontrado seu caminho: viajar, descobrir e escrever. A editora Desclée de Brouwer o encomendou um segundo relato de viagem sobre a América; «Par trois routes américaines» (Por Três Estradas Americanas), em 1937; no ano seguinte, ele publicou «Résonance du sud sur un voyage en Polynésie» (Impacto do sul sobre uma viagem à Polinésia), pela Editora Plon. Ainda em 1937, ele foi um dos fundadores do «Club des explorateurs et des voyageurs» (Clube dos exploradores e viajantes).
Com a força de seu sucesso e de sua rede de contatos, ele também aproveitava os eventos sociais e familiares: “É preciso se apegar à vida como se apega a um cavalo. É preciso seguir seus menores movimentos com suavidade, sem nunca se enrijecer contra ela”, escreveu. Ele aceita as coisas boas da vida, bem como as não tão boas, como cristão, com humildade e espírito de sacrifício. Tão confortável e elegante no uniforme de escoteiro, quanto em traje de noite, ele gosta de repetir que “duas coisas são necessárias para viajar bem: um smoking e um saco de dormir”. A faculdade de direito era coisa do passado. A carreira literária e aventureira de Guy de Larigaudie havia sido definitivamente lançada.
A mais famosa das viagens de Larigaudie continua sendo a rota Paris-Saigon. Mais simples, mais escoteiro na verdade; uma verdadeira aventura que lhe rendeu o apelido de “lendário viajante”. Mas, na década de 1930, quando falava-se da rota Paris-Saigon, pensava-se na aviação. Essa rota lendária entusiasmou os ases da aviação civil: a aviadora Hélène Boucher não teve êxito em 1933, depois André Jappy conseguiu o feito em setembro de 1935, antes de Antoine de Saint-Exupéry tentar igualar-se a ele alguns dias depois, mas caiu com seu avião no deserto da Líbia; a partir de sua desventura, surgiu o maravilhoso «Terre des hommes» (Terra dos Homens). Para Guy, no entanto, não se tratava de bater um recorde horário de avião, mas de realizar a primeira conexão totalmente terrestre entre a França e a pérola do seu império, a Indochina. A ideia dessa rota já estava germinando na cabeça de Guy havia vários meses. Ele procurou guias de viagem, pesquisou, mapeou rotas, procurou patrocinadores e se uniu a Rogar Drapier, um viajante que conheceu no Jamboree, na Austrália, que era mecânico de automóveis de profissão; no entanto, naquela época, nenhum dos dois aventureiros tinha um veículo capaz de percorrer milhares de quilômetros. Guy queria dirigir um carro francês, como os «croisières» pretos (1924-1925) ou amarelos (1931-1932) de André Citroën. Infelizmente, as empresas francesas, prejudicadas pelos conflitos sociais e pelo governo da Frente Popular, não tiveram coragem de se comprometer a preparar um veículo para tal expedição, nem mesmo de conceder um desconto aos dois rapazes. Guy de Larigaudie e Rogar Drapier acabaram comprando um carro usado, um Ford 19 CV conversível com 70.000 km rodados. Depois de algumas semanas de preparação, o carro estava pronto para a corrida. Os dois pilotos o batizaram de “Jeannette” em homenagem à mais nova filial do Guides de France. Munidos de todas as autorizações possíveis do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério das Colônias, e apoiados pelo Bureau Mundial do Movimento Escoteiro e alguns patrocinadores (Le Figaro, Pagante Havas, Touring Club, Shell, patronos privados, etc.), com todo o equipamento necessário, Guy e Rogar estavam prontos no verão de 1937. Eles decidiram partir do Jamboree internacional que estava sendo realizado na Holanda, naquele ano. A expedição e o carro foram abençoados pelo Padre Marcel Forestier e os dois aventureiros partiram sob os aplausos de milhares de escoteiros e guias na noite de 7 de agosto.
Durante dez meses, Guy de Larigaudie e Rogar Drapier, viajantes franceses, usando calças curtas, camisas, lenço e chapéu de escoteiro, percorreram milhares de quilômetros, atravessando Suíça, Áustria, Hungria, Iugoslávia, Bulgária, Turquia, Síria, Líbano, Palestina, Iraque, Irã, Afeganistão, Índia, Birmânia, Sião, Laos, Tonkin (norte do Vietnam), Aname (área central do Vietnam) e Cochinchina (sul do Vietnam). Inúmeras anedotas pontuaram sua jornada. Seus uniformes fizeram com que fossem bem-vindos em todos os lugares, famílias de escoteiros, conventos e mosteiros; eles se banharam no lago de Tiberíades e oraram em Jerusalém e Nazaré; foram recebidos como príncipes por emires e xeiques na Síria; receberam a insígnia do 1º Regimento da Legião Estrangeira em Palmyra e foram apresentados ao vice-rei da Índia; hospedaram-se na casa do irmão do rei no Afeganistão; atravessaram planícies, desertos, florestas e selvas; cruzaram a foz do Ganges e a Birmânia; quase capotaram no Brahmaputra, mas o sempre valente Jeanette se manteve firme, apesar dos repetidos furos, molas e amortecedores quebrados, motor rachado, válvulas estouradas, carroceria completamente amassada e um capotamento no Ganges.
Como escoteiros, sem jamais desanimar, Guy e Roger superaram as dificuldades. Seu segredo era sua fé fervorosa, sua caridade fraterna e a recitação diária do rosário, que os guiou como uma bússola. «Desde a nossa primeira partida para Vogelenzang (Holanda), adquirimos o hábito de rezar um terço todos os dias e continuamos com isso durante toda a viagem, deixando cair a doçura de nossas orações à Maria enquanto vagávamos pela Europa, Síria, Afeganistão e Índia. Uma oração pelo sucesso da nossa viagem, outra pelas nossas duas famílias, cuja preocupação devia ser grande, outra por todos aqueles que nos ajudaram, pelos desconhecidos que nos receberam tão gentilmente, mais uma para que a paz de Cristo desça sobre estas terras que atravessamos. Todos os dias, de Paris a Saigon, rezamos esse terço enquanto dirigíamos.»
Finalmente, no início de março de 1938, depois de terem viajado pelo Mekong durante uma semana, chegaram ao seu destino e foram recebidos triunfantemente na Indochina Francesa: Luang Prabang, Langson, Phnom Penh, Dalat, Hanói, Hue e finalmente Saigon aclamaram os viajantes.
Guy e Roger completaram sua viagem com sucesso. Seguiram-se recepções, coquetéis e conferências. Era a glória. O industrial Henry Ford, que na verdade havia se beneficiado da aventura, emprestou aos pilotos um excelente Ford V8 durante o período em que permaneceu no Extremo Oriente e ofereceu a Roger Drapier um cargo em Saigon; ele permaneceu na Indochina; Jeannette foi vendido em um leilão por uma libra para um grupo de lobinhos de Saigon, que dormiam no clube de beira de estrada da cidade. Ninguém sabe o que aconteceu depois com esse pequeno carro corajoso. Guy retornou à França em julho de 1938 e, de volta a Paris, fez uma série de palestras e reuniões públicas, além de eventos sociais e de mídia. Retornou ao Escotismo e sonhou com novas rotas, dessa vez de avião. Ele também expressou o desejo de trabalhar com os portadores de hanseníase na Ásia e na África. Sempre essa sede pelo ideal e pelo dom de si mesmo. Mas a Segunda Guerra Mundial eclodiu em setembro de 1939.
Na linha de frente
No início de setembro, o suboficial Guy de Larigaudie juntou-se à cavalaria do distrito de Dupleix, em Paris. Ele comandava uma dúzia homens, “camponeses ou crianças parisienses”. Ele escreve para sua mãe: «Esse grupo de homens, com quem convivo o dia todo, tem as mesmas reações infantis, raivosas, de bom senso, cansaço e resistência que meus escoteiros de Montmartre». Em outubro, ele partiu para Rambouillet, mais precisamente para a vila de Émancé, onde estava sua unidade. Lá, ele recebeu uma ordem de seu capitão para montar um alojamento para os soldados. A sede dos Scouts de France forneceu revistas, livros e jogos; os principais bares forneceram cinzeiros e outros itens promocionais. Guy escreve : «Mas a característica mais bonita do alojamento é, sem dúvida, o enorme fogo à lenha que queima na chaminé. O belo fogo que evoca imagens de noites em família, de calma, paz e gentileza, o fogo que desperta lembranças, facilita confidências, acalma a raiva e a amargura, o belo fogo a lenha da minha antiga casa no Périgord e dos meus acampamentos. Mas essa “guerra falsa”, atrás da linha de frente, é um tédio total. Partimos com grande entusiasmo e vontade de lutar, e agora somos algumas centenas condenados à estagnação e ao tédio. Na verdade, é mais difícil do que levar um chute na cara. É hora de aguentar firme, sorrir e ser mais feliz do que nunca». Felizmente, ele teve licença em Les Gérauds, onde pôde recarregar as baterias com a família em seu amado Périgord. Guy estava em busca de mais ação. No final de dezembro, a cavalaria foi reorganizada. Junto com vários de seus companheiros, ele se ofereceu como voluntário para o 25º Grupamento de Reconhecimento de Corpos do Exército (GRCA), em Rambouillet.
Os GRCA, típicos da organização do exército francês da época, eram formados a partir dos esquadrões dos regimentos de cavalaria dissolvidos em 1939 e designados às unidades principais. São formados principalmente por reservistas e pessoal da ativa. A maioria dos GRCAs era “mista”, constituída por um grupo de esquadrões montados (cerca de quinhentos cavalos) e um grupo de esquadrões motorizados com cerca de oitenta caminhões e caminhonetes. Além disso, mais de cem motocicletas estavam à disposição para fazer as conexões. Levemente armados (submetralhadoras, metralhadoras, quatro canhões de pequeno calibre, três morteiros), as missões do GCRA eram coletar informações, identificar o avanço do inimigo e poder fazer contato com ele, garantir a segurança e reforçar a unidade principal em caso de combate. Em 21 de dezembro de 1939, o comando do 25º GRCA foi confiado ao Tenente-Coronel François-Xavier Lesage, chefe dos cavaleiros do Cadre Noir de Saumur (Escola Nacional de Equitação de Saumur), bicampeão olímpico de adestramento nos jogos de Los Angeles (1932). A unidade deveria estar pronta para ir para a linha de frente em 13 de janeiro de 1940, em apenas três semanas! O histórico 25º GRCA refletia a atmosfera da época:
«É preciso dizer que seu nascimento não foi fácil; havia poucos motoristas de carro, nenhum motociclista […]. Ao primeiro chamado percebemos que só existiam fantasmas. Havia oficiais e homens de todas as classes. Muitos voluntários, inclusive alguns muito velhos, de cabelos brancos, que já haviam lutado na outra guerra. Alguns se fingiam de mortos. A vida era tão boa em Rambouillet, com trinta e seis horas de folga todos os sábados, sem controles rigorosos de presença, Paris a apenas alguns quilômetros de distância e facilidade para pegar carona. Os arredores do Bairro ficavam lotados de carros particulares que partiam ao anoitecer e só retornavam no dia seguinte, e muitas vezes, vários dias depois. […] Os oficiais designados, em treinamento, chegaram aos poucos. E todos ficavam felizes em ir embora. […] Finalmente, em 27 de janeiro, a ata de treinamento foi redigida e o 25º GRCA surgiu».
O tenente-coronel Lesage podia se orgulhar de seu trabalho. Ele disse aos seus homens: «O 25º GRCA é o mais bem equipado de todo o exército francês. É importante que ele seja o primeiro de toda a linha». Em 1º e 2 de março, os esquadrões embarcaram nos trens e seguiram para a linha de frente. Eles se estabeleceram em Champagne, a noroeste de Reims, como em 1914-1918. A recepção dos habitantes locais foi excelente. Os cavaleiros treinavam e participavam de exercícios. O historiador escreveu: «No final de abril, o GRCA tinha adquirido uma boa aparência e estava pronto para realizar todas as missões que lhe fossem confiadas; os homens estavam bem preparados, o equipamento automotivo bem conservado e os cavalos em boas condições. O moral era excelente». Guy foi destacado para o 2º esquadrão de cavalaria do capitão Naud e alojado em Cauroy-lês-Hermonville. Mas apesar de estar na zona do exército, havia tão poucos eventos quanto em Rambouillet. Guy fica deprimido: «E ainda não há batalha à vista! Como diabos vamos sair desse impasse […]. Vida longa à vitória e à paz». Mas muito bem recebido pela população, o suboficial foi confortavelmente alojado e alimentado.
Em suas cartas aos seus entes queridos, Guy falava sobre seus planos e sonhos: «retornar à América e à Ásia, descobrir a África e o Tibete, esquiar no Himalaia, navegar pelo Indo e pelo Brahmaputra, fundar uma série de mosteiros de ordens contemplativas no Oriente, de Palmyra à China, para converter o Oriente ao Cristianismo, escrever um livro no gênero de «Terre des hommes» com mais amor a Deus». Um programa eclético, excêntrico e apaixonante, como a vida de Guy. Entre o final de março e início de abril, ele retornou a Les Gérauds para uma última licença de descanso. Depois de alguns dias de alegria, ele se despediu de sua família. No momento da partida, um véu cinza cobriu toda a região; a chuva caía sobre o velho telhado. Guy abraçou sua família, sua mãe, seus sobrinhos – o futuro! – Da porta do carro que o leva embora, ele gritou: «Se eu morrer, não chorem por mim». Ele cruzou a alameda de olmos uma última vez.
A morte de Guy
Há algo de Príncipe Éric e Christian d’Ancourt, os heróis de Serge Dalens, no drama dos últimos dias de Guy de Larigaudie. Sua guerra em uma unidade de cavalaria, o ataque alemão, a morte em combate após resistência heróica, as honras prestadas pelo adversário. A morte de Guy faz parte de sua lenda. Em 11 de abril, um mês antes de sua morte, ele escreveu para sua mãe: «Que Deus nos conceda uma boa luta e que acabemos logo com isso». Esperar tinha se tornado insuportável para ele. Havia rumores de ataques na Noruega, nos Alpes e na Síria. Três semanas depois, o 25º GRCA deixou a região de Reims em direção a um destino desconhecido no leste, parando em Longwy, uma cidade industrial na fronteira entre a Bélgica e Luxemburgo. Três mil soldados franceses aguardavam o ataque nesse pequeno canto da França. O 2º esquadrão, o esquadrão de Guy, estabeleceu-se em Longlaville, a leste de Longwy. O tenente-coronel Lesage recebeu as instruções e hipóteses a serem consideradas do comandante do corpo ao qual estava subordinado: os alemães atacariam apenas a Bélgica, apenas Luxemburgo, ou os dois países neutros. Os soldados estavam atentos, mais alguns dias de trégua.
Em 10 de maio de 1940, a Wehrmacht atacou a linha de frente. Os militares do grupo de reconhecimento testemunharam pela primeira vez os ataques aéreos entre a Luftwaffe e os caças franceses. Estes últimos não desistiram e saíram vitoriosos. Mas o equilíbrio de poder era muito desproporcional. Foi dada ordem aos cavaleiros do 25º GRCA para bloquear o ataque terrestre simultaneamente na Bélgica e em Luxemburgo. Os esquadrões cruzaram as fronteiras a toda velocidade. O esquadrão Naud, o esquadrão de Guy, tinha a missão de flanquear pelo norte. Os franceses encontraram os primeiros refugiados, homens assustados, famílias carregando o pouco que lhes restava, fugindo do exército invasor. Era o êxodo como nos tempos bíblicos. O esquadrão de motocicletas assumiu a liderança, mas não havia carros blindados; estes haviam sido requisitados pelo escalão superior. Imediatamente após ser atacado, o GRCA contabilizou seus primeiras mortos. As forças inimigas eram muito fortes. O ataque francês foi adiado. Os soldados recuaram. Mas era necessário resistir e recuperar o terreno perdido. Na manhã seguinte, o comandante do corpo deu ordem para atacar novamente. O esquadrão Naud deveria defender a floresta Musson. Vários grupos inimigos tentavam se infiltrar entre os franceses. Às 19h, o bombardeio se intensificou. Os alemães estavam por toda parte. O historiador do 25º GRCA descreveu as últimas horas de 11 de maio nas florestas de Musson, mantidas pelo pelotão do tenente Lhureau-Dangin (esquadrão Naud), ao qual Guy de Larigaudie pertencia. Os franceses lutaram corajosamente contra um inimigo muito superior.
Os alemães conseguiram ganhar posição na floresta, apesar das rajadas disparadas pelos tenentes de Layre e Guinais. Como a missão era resistir sem ser pego, o tenente de Layre enviou o 4º pelotão para se posicionar na linha de frente […] e tentou resistir para proteger o movimento. O cavaleiro Berthier, enviado pelo tenente de Layre para dar a ordem de recuo ao 2º pelotão, não pôde cumprir sua missão, pois os alemães já estavam ocupando parte da floresta. No entanto, o tenente Pinou, julgando que a situação era crítica, saiu a tempo de evitar ser cercado e recuou pela floresta. O tenente de Layre então separou o que restava do grupo de combate do sargento Sasz, que logo foi atacado pelos alemães e permaneceu com o cabo Guessot e o cavaleiro Pourvoieur. Junto com o sargento Aimé, o tenente de Layre resistiu para permitir que os outros grupos recuassem; de pé com sua metralhadora na mão, disparando até o último tiro, ele soltou sua arma e foi o último a deixar a posição. Os alemães ocuparam o limite da floresta. A artilharia inimiga então retomou o fogo na saída sul da floresta de Musson. O tenente de Layre e o sargento Aimé, com quatro equipes, cobriram a retirada dos atiradores do 4° esquadrão, enquanto o soldado Lafon de la Valleinerie assumiu o comando de alguns homens isolados e se retirou. Eles foram obrigados a abandonar a estrada, que havia sido atingida pelo fogo inimigo e obstruída por bombas; infelizmente, o solo era muito pantanoso e, um por um, os carros atolaram, forçando os motoristas a abandoná-los diante da pressão inimiga contínua. Na escuridão da noite, o tenente de Layre e a maior parte de seu pelotão conseguiram se juntar novamente ao esquadrão na posição de recuo, trazendo de volta seus feridos. À direita, os pelotões Avenel e Coupery do 1º Esquadrão, que ocupavam Halanzy, também tiveram que recuar, assim como o pelotão do Tenente Guillais em Musson, para não serem capturados. Ao mesmo tempo, assim como na floresta de Musson, os alemães chegaram ao limite da floresta de Haut e conseguiram penetrar nos espaços entre os pontos de apoio. O pelotão do 2º esquadrão do tenente Thureau-Dangin, que estava instalado no centro do dispositivo, foi completamente cercado pela frente e pela retaguarda e foi atacado de ponta a ponta. Tiros pesados e gritos em alemão e francês eram ouvidos de todos os lados. Todo o pelotão ficou nas mãos do inimigo. Caíram mortos: o sargento Larigaudie e os soldados Bourin Lucien, Lhomme Marcel, Maruedo Émile e Massinot Marcel.
O sargento Guy de Larigaudie morreu no segundo dia do ataque alemão por volta das 21h. Ao seu lado, havia quatro soldados do seu grupo. Os soldados alemães prestaram homenagem a seus restos mortais e os corpos foram enterrados no local. Eles devolveram os documentos pessoais dos cinco homens às suas famílias. Nos papéis de Guy, foi descoberta uma carta muito bonita, escrita a uma freira carmelita, sua confidente:
Maio de 1940
«Minha Irmã,
Agora estou na grande batalha. Talvez eu não volte. Eu tinha lindos sonhos e planos, mas, não fosse a imensa dor que isso causará à minha pobre mãe e aos meus, eu exultaria de alegria. Eu estava com tanta saudade do céu e agora a porta está prestes a se abrir. O sacrifício de minha vida não é nem mesmo um sacrifício, tão grande é meu desejo pelo céu e pela posse de Deus. Eu sonhava em me tornar um santo e um modelo para os lobinhos, escoteiros e viajantes. A ambição pode ter sido grande demais para o meu tamanho, mas era o meu sonho. Estou treinando para ser um cavaleiro e estou muito feliz que minha última aventura será a cavalo. Agradeço a você, minha irmã, por ter orado tanto por mim e por ter acompanhado tão bem, durante doze anos, o progresso, às vezes hesitante, de minha alma. A oração que veio de seu mosteiro foi meu apoio e minha proteção. Quando souber da minha morte, escreva à minha mãe para consolá-la. Você dirá a ela que não deve chorar. Estarei muito feliz lá em cima. Que ela pense que parti para um jardim distante, muito mais belo que os recifes de corais, onde terei toda a luz, toda a beleza, todo o amor pelo qual tanto tenho sede, tanta sede. Era isso que eu queria lhe dizer, minha irmã. Tudo o que resta agora é sair feliz em minha última aventura.
Seu irmão em N.S. Guy de Larigaudie»
O corpo de Guy foi enterrado primeiro em Mousson e depois transferido para sua casa em Saint-Martin-de-Ribérac, na região do Périgord, que ele tanto amava. Na revista Scout, uma bela homenagem foi-lhe prestada pelo capelão geral, Padre Marcel Forestier: «Nele revivia aquela cortesia dos cavaleiros que chamávamos de gentileza, feita de alegria, de ternura para com os pequenos e os fracos, de nobre independência, de simplicidade infantil. Era como uma flor de profunda claridade. Ele tinha predileção por aqueles a quem a vida não havia favorecido».
A influência de Guy ao longo de sua vida e sua morte heroica mantêm sua memória viva. Desde 1940, dezenas de grupos do Scouts de France, Scouts d’Europe e Scouts Unitaires de France (Reims, Montpon, La Roche-Chalais, Versailles, etc.) se colocaram sob seu patronato. O mais famoso deles é o clã dos viajantes de Belfort (Scouts de France) Guy de Larigaudie, cujo galhardete foi condecorado com a medalha da Resistência pelo ministro Edmond Michelet em julho de 1946 por sua participação na Libertação: onze de seus membros (de um total de vinte e quatro) morreram pela França em combate ou em campos de concentração.
Em 1943, a família de Guy publicou uma coleção de notas e reflexões que têm sido um sucesso desde então: o já mencionado «Estrela de Alto-Mar» («Étoile au grand large», em francês), que contém textos de simplicidade comovente e profunda espiritualidade. Quem não conhece esses pensamentos simples e tão atuais?
«Descascar batatas por amor a Deus é tão bonito quanto construir catedrais».
«A vida ideal é aquela em que Deus quer que sejamos monges, aventureiros, poetas, sapateiros ou seguradores».
«É preciso ter o coração repleto de Deus, assim como um noivo tem o coração repleto da mulher que ama».
«As moças são a imagem preciosa de nossa mãe quando ela tinha a nossa idade. Baixas ou altas, loiras ou morenas, elas são claras, limpas e saudáveis, e o próprio Deus deve sorrir quando as vê passar».
«Faça de sua vida uma conversa com Deus».
Vale a pena citar toda essa pequena coleção como fonte de senso comum e meditação. Em 1963, foi fundada a Associação Guy de Larigaudie, em Saint-Martin de Ribérac e, mais tarde, um museu foi dedicado a ele em seu vilarejo: A Parada Guy-de-Larigaudie. Finalmente, em 2003, a escola livre de Musson, na Bélgica, situada a poucas centenas de metros da floresta onde ele morreu em combate com seus cavaleiros, adotou o nome do famoso viajante, que é perpetuado por um pequeno monumento. Guy de Larigaudie, lendário viajante e herói francês, continua presente.
Texto extraído do livro «Grandes Figures du Scoutisme»,
de Christophe Carichon, Editora Artège, 2021.
Tradução: Professora Soraya Oliveira.
Adaptação e revisão: Rubem Perlingeiro.
*Rubem Tadeu Cordeiro Perlingeiro é membro do Comitê Escoteiro Interamericano e Conselheiro do Centro Cultural do Movimento Escoteiro.
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